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EDUCAÇÃO EM RISCO

Em Canoinhas: a estrada alaga, a aula vira remota e o futuro paga a conta

A falta de infraestrutura no interior de Canoinhas compromete o ensino e levanta questionamentos sobre o planejamento municipal

Publicado em 13/10/2026 às 09:44
Atualizado em

Foto: Montagem ilustrativa. À esquerda, imagem original de um ônibus escolar em uma estrada do interior de Canoinhas. À direita, imagem produzida por inteligência artificial, representando as dificuldades enfrentadas por estudantes da zona rural para acompanhar aulas remotas.

EMPRESÁRIO E JORNALISTA

ROBSON CALIXTO

Após um período de ausência desta coluna, em respeito às restrições previstas na legislação eleitoral, retomo este espaço de opinião, reflexão e cobrança sobre os assuntos que impactam nossa cidade e nossa população. Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor, Robson Calixto dos Reis. As ideias e posicionamentos apresentados nesta coluna são pessoais e não representam, necessariamente, a linha editorial do Portal da Cidade. O objetivo é provocar reflexão e debate a partir da vivência e da realidade da nossa região. INSTAGRAM: @robsoncalixtoreis FACEBOOK: robsoncalixtodosreis

EMPRESÁRIO E JORNALISTA

 

Há algo muito errado quando as condições de uma estrada começam a determinar quantos dias uma criança pode frequentar a escola.

E é exatamente isso que estamos vendo em Canoinhas.

Chove. A estrada alaga. O ônibus escolar não passa. E a solução encontrada pela administração municipal é transferir as aulas presenciais para atividades remotas.

Mas será que isso resolve o problema?

Ou estamos apenas tapando o sol com a peneira?

No dia 7 de outubro, 14 unidades escolares do interior de Canoinhas precisaram adotar atividades remotas devido aos alagamentos e bueiros submersos.

É evidente que a segurança dos estudantes vem primeiro. Ninguém está defendendo colocar crianças dentro de ônibus em estradas perigosas.

O que questiono é por que continuamos chegando a esse ponto.

Desde o primeiro semestre, os alertas sobre chuvas intensas e os possíveis efeitos do El Niño já exigiam atenção. A própria Prefeitura decretou estado de alerta climático em junho.

Então, a pergunta é inevitável.

Onde estava o planejamento preventivo? Onde estavam as melhorias nos pontos críticos, a drenagem adequada, a elevação de trechos vulneráveis e a recuperação dos bueiros?

Porque não estamos falando apenas de um dia sem aula.

Há relatos de localidades onde, dependendo das chuvas, estudantes conseguem frequentar a escola apenas uma ou duas vezes durante a semana.

E nos outros dias?

Aula remota.

E aqui existe uma desigualdade que precisa ser discutida com muita seriedade.

Enquanto as crianças da cidade continuam frequentando normalmente suas salas de aula, parte dos estudantes do interior precisa se contentar com atividades remotas porque as estradas não oferecem condições para o transporte escolar.

Estamos falando de crianças do mesmo município, que deveriam ter as mesmas oportunidades de aprendizagem. Mas, na prática, o lugar onde moram acaba determinando as condições em que recebem sua educação.

E eu pergunto: por que uma criança do interior precisa enfrentar prejuízos na continuidade do ensino enquanto outra, que mora na cidade, consegue estudar normalmente?

Não se trata de prejudicar quem estuda na área urbana. Muito pelo contrário. Trata-se de garantir que os alunos do interior tenham os mesmos direitos e oportunidades.

A educação não pode ser de primeira para quem mora na cidade e de segunda para quem vive no campo.

E muito menos podemos aceitar que essa desigualdade seja tratada como uma consequência normal das chuvas.

Mas todas essas crianças possuem internet de qualidade? Têm equipamentos adequados? Conseguem acompanhar as explicações? Recebem o suporte necessário?

A pandemia já nos mostrou que essa preocupação não é exagero.

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), o percentual de crianças alfabetizadas ao final do segundo ano caiu de 60,3% em 2019 para 43,6% em 2021. Em 2023, o índice havia se recuperado para 55%, ainda abaixo do período anterior à pandemia.

Outra pesquisa do próprio Inep revelou que 24% dos estudantes avaliados do quinto ano não possuíam equipamentos adequados para acompanhar as aulas remotas durante a pandemia.

São dados nacionais, de um contexto diferente, mas que deixam um alerta importante: substituir a sala de aula por atividades remotas exige condições que nem todas as famílias possuem.

E quando essa alternativa deixa de ser excepcional e começa a se repetir, precisamos discutir as consequências para a aprendizagem.

Afinal, quem vai recuperar o conteúdo que uma criança deixou de compreender?

Quem vai responder pelas dificuldades que poderão aparecer nos próximos anos?

E não é somente a educação que sofre.

Estradas sem condições também dificultam o transporte de pacientes, o atendimento médico, o deslocamento dos trabalhadores e o escoamento da produção rural. Produtos perecíveis não podem esperar indefinidamente que a estrada melhore.

O prejuízo alcança toda a comunidade.

O caminho não pode ser apenas administrar as consequências da chuva. É preciso enfrentar as causas dos problemas de acesso.

A Prefeitura precisa apresentar um planejamento público de intervenções, identificar os trechos mais vulneráveis, priorizar obras de drenagem e recuperação e garantir acompanhamento pedagógico aos estudantes prejudicados.

Mais do que discursos e planos de contingência, precisamos de obras preventivas e resultados.

Porque a educação não pode continuar pagando pela precariedade da infraestrutura.

E deixo uma última reflexão.

De que adianta garantir uma atividade remota para a criança se não estamos garantindo as condições necessárias para ela realmente aprender?

A chuva pode até impedir a passagem de um ônibus.

Mas a falta de planejamento não pode continuar comprometendo o futuro das nossas crianças.

Fonte: Robson Calixto dos Reis

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