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COLUNA ROBSON

Bingo comunitário não é crime: é socorro onde o Estado não chega

Sob o discurso de proteção, nova regra ameaça uma das principais formas de solidariedade no interior

Publicado em 28/01/2026 às 15:48
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Foto: Cobertura show de prêmios em Canoinhas

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(Versão em áudio da reportagem)

Quando falta médico, é rifa. Quando o remédio é caro, é bingo. Quando a casa pega fogo ou a doença tira alguém do trabalho, a comunidade se reúne, passa a sacolinha, organiza um evento e ajuda. Sempre foi assim. Não por escolha, mas por necessidade.

A Constituição promete saúde, educação e assistência social para todos. Mas quem vive longe dos grandes centros sabe que, muitas vezes, isso não chega. E quando não chega, o povo não cruza os braços. Ele se organiza. Ele cuida dos seus.

É nesse cenário que os bingos comunitários surgiram e se mantiveram por décadas no interior de Santa Catarina. Não como jogo, não como negócio, mas como ferramenta de solidariedade. Bingo para pagar tratamento médico, para reforma de um salão paroquial, para ajudar uma família que perdeu tudo em um incêndio, para socorrer quem ficou impossibilitado de trabalhar depois de um acidente ou de uma doença grave.

Agora, sob o discurso de “regulamentar”, a Lei Estadual nº 19.690/2026, de autoria do deputado estadual Antídio Lunelli e sancionada pelo governador Jorginho Mello, cria amarras que, na prática, dificultam justamente esse tipo de ajuda. A exigência de certificações, processos burocráticos e validações formais transfere para prefeituras e entidades uma carga que muitas vezes elas não conseguem suportar. O resultado é simples: menos bingos, menos ajuda, menos socorro para quem precisa, sob o risco de multas que podem chegar a R$ 100 mil.

No papel, a lei diz que quer combater falsos bingos e garantir transparência. Mas quem vive no interior sabe muito bem diferenciar um bingo comunitário de uma exploração. A população conhece quem organiza, sabe para quem é o dinheiro, acompanha o destino de cada cartela vendida. Não é o Estado que ensina isso ao povo. É a vivência.

Além da função social, existe outro ponto que parece ignorado por quem escreve leis de gabinete: o bingo também é lazer. No interior, não tem cinema, não tem academia, não tem praça, não tem shopping. O bingo virou, ao longo de anos, um espaço de convivência, de encontro, de conversa. Um momento em que idosos, famílias e vizinhos se reúnem, riem, participam. Tirar isso é também tirar dignidade e vida social.

Quando o poder público falha, a sociedade se reorganiza. Sempre foi assim. O problema é quando o mesmo poder público, que não conseguiu garantir o básico, resolve engessar justamente as soluções que o povo criou para sobreviver.

Dizer que essa lei protege a população é fácil. Difícil é explicar para quem precisa de um tratamento urgente por que agora não pode mais contar com aquele bingo que sempre ajudou. Difícil é olhar para a senhora do interior e dizer que o único lazer dela agora precisa de carimbo, processo e autorização.

Regular sem entender a realidade é afastar ainda mais o Estado das pessoas. E, nesse caso, quem paga a conta não é quem faz a lei. É quem mais precisa da ajuda coletiva que sempre funcionou no interior de Santa Catarina.

EMPRESÁRIO DE CANOINHAS

ROBSON CALIXTO

Este texto reflete exclusivamente a opinião do autor, Robson Calixto dos Reis. As ideias e posicionamentos apresentados nesta coluna são pessoais e não representam, necessariamente, a linha editorial do Portal da Cidade. O objetivo é provocar reflexão e debate a partir da vivência e da realidade da nossa região.

EMPRESÁRIO DE CANOINHAS


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