Eu li o ofício. E ele não deixa margem para dúvida. Vou deixar o documento ao final desta coluna para que cada um tire sua própria conclusão.
No dia 20 de março, o Secretário de Educação, James Brey, foi claro: está vedada a divulgação de imagens de estudantes da rede municipal. A justificativa é correta. Proteção da criança, respeito ao ECA, responsabilidade com o ambiente escolar.
Até aqui, tudo certo. E também cabe o reconhecimento pela iniciativa.
Mas três dias depois, no dia 23, surge um vídeo dentro de uma escola, em sala de aula, publicado pela própria prefeita Juliana Maciel em suas redes sociais, mostrando o ambiente e alunos durante a atividade.
E é nesse ponto que a situação deixa de ser simples.
Porque a pergunta aparece de forma inevitável:
A regra vale para todos?
Quando a orientação é formal, assinada e direcionada a toda a rede, o mínimo que se espera é que ela comece sendo cumprida por quem está no topo. Caso contrário, o que se passa para quem está na ponta?
Eu fico imaginando o diretor, o professor, o servidor.
Na próxima vez, ele segue o ofício… ou segue o exemplo?
Porque, na prática, é isso que pesa.
E aí entra outra questão que ninguém pode ignorar. A direção da escola liberou por convicção ou por falta de espaço para negar? Porque todos sabem como funciona quando o peso do cargo entra na sala. Nem sempre é preciso pedir. Às vezes, a situação já impõe.
O problema maior vem depois.
Se pode hoje, quem impede amanhã?
Vereador pode gravar também? Pré-candidato pode entrar na escola e usar aluno como cenário?
Porque quando a exceção vem de cima, ela vira precedente.
E precedente, na política, é difícil de conter.
Mesmo que exista autorização dos pais para uso de imagem, a questão não se encerra aí. Porque não é apenas sobre a legalidade do ato.
É sobre a coerência da regra que foi estabelecida. Se a orientação é clara e restritiva para toda a rede, a exceção, ainda que amparada formalmente, continua sendo um sinal que se espalha.
E, na prática, é o exemplo que define até onde a regra realmente vale.
Não se trata aqui de discutir o conteúdo do vídeo ou a intenção da publicação. O ponto é mais simples e mais sério: coerência.
Se existe uma regra para proteger, ela precisa ser respeitada por todos. Sem diferença de cargo, sem margem de interpretação conveniente.
Eu continuo acreditando numa lógica simples, daquelas que o Brasil precisa reaprender urgentemente. O pau que bate em Chico tem que bater em Francisco.
Regra foi feita para ser cumprida.
Por todos.
Porque, quando isso não acontece, o problema deixa de ser um episódio isolado.
Passa a ser o exemplo que a gestão decide dar.
No papel, a regra protege.
Na prática, o exemplo define.
E é aí que se revela, de verdade, como uma gestão escolhe ser lembrada.
